Estado de Minas 27/10/2008
O Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) avalia que problemas na formação de professores aliados à carência de infra-estrutura nas escolas públicas são as principais razões para o déficit de aprendizado. Para tentar mudar essa realidade, o órgão, que reúne as secretarias estaduais de todo o país, sugere a aplicação de provas para medir a qualidade dos profissionais do ensino básico. A proposta é identificar deficiências e até mesmo impedir que docentes despreparados possam dar aulas.
Minas deve ser o primeiro estado a aderir à aplicação dos testes no Brasil. Segundo a Secretaria de Estado de Educação (SEE), os mais de 121 mil profissionais que lecionam nos níveis fundamental e médio devem ser submetidos, a partir do ano que vem, ao exame, informalmente chamado de certificação do professor. O formato da prova ainda não foi definido, mas a proposta inicial é de que ela seja dividida em dois momentos: um para avaliar conhecimentos e outro, o desempenho em sala de aula. Um grupo de técnicos do governo estadual estuda as regras e os detalhes da avaliação desde o ano passado, e eles já concluíram que os primeiros a participarem da iniciativa serão os professores da alfabetização.
A idéia é fazer uma radiografia completa das habilidades e aptidões de quem está no comando das salas de aula e evitar que casos preocupantes, como o de Daniel, continuem engrossando as estatísticas. O garoto tímido, morador do Aglomerado da Serra, na Região Centro-Sul da capital, reconhece o esforço dos professores, mas não esconde a angústia de não aprender nem o básico. 'Gosto do português, mas sou muito ruim e não conheço bem as letras. Os colegas fazem brincadeiras comigo e fico muito chateado, mas não quero deixar a escola', lamenta. A persistência de Daniel, no entanto, não é comum a todos os jovens. Segundo o IBGE, menos da metade das pessoas com idade entre 15 e 17 anos freqüenta o ensino médio. Os dados são da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).
Magistério
Segundo ela, a avaliação pode trazer melhorias significativas para a qualidade do ensino, desde que seja acompanhada por políticas de valorização do profissional. O Consed ainda propõe que as provas sejam aplicadas ao final dos cursos de licenciatura e também para quem já está em exercício nas escolas. 'Não é por acaso o grande número de estudantes analfabetos, pois o professor tem uma formação frágil. As universidades avançaram muito nas discussões, mas falta controle sobre a qualidade das faculdades particulares e dos cursos de educação a distância. Para a categoria ter bons salários e criar uma carreira atraente, ela depende da formação acadêmica', acrescenta Maria Auxiliadora.
Em Minas, a Secretaria de Estado de Educação pretende fazer avaliação nos moldes dos testes aplicados, há cinco anos, aos diretores de escola. 'Com o certificado, o professor será reconhecido pelo domínio do seu ofício. Ou seja, vamos identificar quem, na prática, está sabendo fazer e quem não tem conhecimento nem bom desempenho. O magistério é uma profissão nobre, de desafios enormes, e estamos firmes na difícil luta pela valorização e prestígio do professor', diz a secretária de educação Vanessa Guimarães. Além da falta de docentes com habilitação específica em algumas áreas, como física e química, Vanessa reconhece o déficit de qualidade. 'Os profissionais não têm preparação adequada, pois as universidades não ensinam a dar aula. Eles têm boa formação teórica, mas há problemas no manejo em sala de aula'.
O Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-Ute/MG) faz ressalvas aos testes. 'O profissional não tem medo de ser avaliado, mas nossa preocupação é que esse exame seja visto como solução para todos os problemas de qualidade do ensino. A avaliação é fundamental, mas tem que ser entendida como processo, ou seja, não podem deixar de ser reconhecidos a valorização salarial, as condições de trabalho, a infra-estrutura das escolas e o capital social e cultural dos alunos', afirma a coordenadora-geral do Sind-Ute, Maria Inêz Camargos. A Secretaria Municipal de Educação foi procurada pelo Estado de Minas, mas, até o fechamento da edição, não retornou para comentar o
assunto.
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