3 de maio de 2016

RELATO DA OCUPAÇÃO


No dia 25/04/2016, ao chegarmos à porta da Prefeitura para a Assembleia Geral de profissionais da Educação de Contagem, em greve há 33 dias, já se observava um grande efetivo da Guarda Municipal em todo o entorno. Iniciamos a Assembleia às 08h00min para informar os/as trabalhadores/as sobre as últimas negociações, dentre elas não avanço na proposta de reajuste e sobre a oficialização do corte de ponto para os/as grevistas.

Concomitante à Assembleia, um grupo de trabalhadores/as da Educação, da Saúde e membros da comunidade escolar ocuparam a Prefeitura para exigir esclarecimentos do governo referentes às duas questões citadas acima. Começamos a nos manifestar de maneira pacífica, com músicas e palavras de ordem, quando repentinamente fomos repreendidos pela Guarda Municipal de Contagem (GMC),dizendo que ali não era espaço para manifestação e que estávamos impedindo o direito de ir e vir das pessoas, além de estarmos atrapalhando o trabalho dos/as servidores/as, o que definitivamente não aconteceu em momento algum.

Por volta de 10h00min, as portas da Prefeitura foram fechadas, impedindo a entrada de qualquer cidadão/ã na tentativa de isolar o movimento. A partir de então, iniciou-se um processo de ocupação em duas frentes: uma interna, com cerca de 38 servidores/as; e uma externa, composta por um grupo grande que permaneceu no local mesmo após o término da Assembleia.

Este impedimento gerou grande indignação nos/as companheiros/as que estavam na parte externa da prefeitura e a tensão com a Guarda aumentou, uma vez que passamos a temer pela nossa integridade física. 

Por volta de 10h30min, o grupo que estava impedido de entrar, insiste em oferecer apoio aos/as companheiros/as na parte interna da prefeitura. Foi neste momento que houve uma reação desproporcional por parte da Guarda Municipal e do Batalhão de Choque da PM, que, em um uso desmedido da força, usaram spray de pimenta e golpes de cassetetes indiscriminadamente, contra homens e mulheres, inclusive grávidas. Ficamos aterrorizados/as assistindo à agressão sem conseguir fazer nenhum registro ou ajudar as pessoas. A única arma que nos restava eram os gritos de “covardes”, fascistas”. 

Apesar da violência e da agressão, o grupo externo se manteve em vigília. Foi providenciado o suporte logístico para a ocupação: barracas, água, comida, etc. Por volta de 13h30min, chegou o almoço, com uma quantidade suficiente para atender às duas ocupações: interna e externa. Porém, um novo impasse: seguindo ordens superiores (do Secretário da Defesa Social, José Rodrigues), a Guarda Municipal impediu a entrada de qualquer alimento para o interior da prefeitura. Os/as companheiros/as confinados/as somavam 5 horas de jejum. 

Fomos isolados/as e proibidos/as de receber alimentos. Durante todo o tempo fomos filmados/as, fotografados/as e ridicularizados/as pela guarnição presente porque exigíamos o direito básico à alimentação.

A entrada das portarias passou a ter controle rígido e todos/as que tentavam entrar com alimentos eram impedidos/as. Professoras grávidas chegaram a ser proibidas de entrar para utilizar o banheiro. Uma vez caracterizados/as como participantes do movimento, eram seguidos/as em todo trajeto interno na prefeitura, para garantir que não houvesse contato ou ajuda com os/as educadores/as ocupados/as no saguão.

Uma trabalhadora do setor administrativo interno da prefeitura, que tentou repassar alimentos da parte externa para a parte interna do prédio, foi constrangida e advertida por sua chefia imediata e um Guarda Municipal. A postura fascista gerou muita revolta em todos.

Foram feitas várias tentativas para negociar entrada de alimento, todas sem sucesso. O grupo externo precisou intensificar as ações. A primeira delas foi contactar mediadores para tentar resolver esse impasse: foram acionados forças políticas diversas, centrais sindicais, líderes religiosos, entidades de Direitos Humanos, enfim, tudo que tínhamos à mão naquele momento. Nenhuma solução imediata.

Após 8 horas de jejum dos companheiros confinados, o grupo externo precisou radicalizar. Deliberou-se, então, fechar o trânsito em ruas do entorno da prefeitura. Munidos com uma Kombi de som, apitos e faixas, denunciavam para a população o que os/as servidores/as da educação e da saúde tinham sofrido e continuavam sofrendo por parte do governo, além de pressionar para obter resposta rápida para o impasse da proibição da entrada de alimentos.

Foram  aproximadamente 10 horas seguidas de fome, enquanto os alimentos aguardavam do lado de fora, deliberação do comandante da guarda. Nesse período, os/as companheiros/as do lado de fora tentavam passar biscoitos pelas grades do jardim, mas eram reprimidos/as pela guarda.

Somente à noite, depois de muita negociação, foi liberada a entrada de comida.

No entanto, houve a proibição da entrada de qualquer tipo de colchão, cobertor ou agasalhos. O frio do chão atingiu a todos/as, pois mesmo o grupo tentando ficar acordado, em algum momento, o cansaço nos abatia e tentávamos descansar. O chão, coberto de jornais, virou cama e fomos tentando descansar. As trabalhadoras que eram mães procuravam manter contatos com seus familiares no intuito de tranquilizá-los.

 

O segundo dia começou de madrugada, sem o café da manhã. Mesmo estando acostumados, enquanto trabalhadores da educação, a lidar com condições de trabalho desfavoráveis, o dia foi difícil. Apenas a esperança nos movia na expectativa de que as negociações avançassem de forma positiva.

A solidariedade dos colegas nos chegava a todo instante, vendo-os acampados na parte externa, colados no vidro da portaria principal ou via rede social expressando manifestações de apoio. Novamente, depois de muita negociação, conseguimos acesso ao café da manhã e almoço. Aguardamos a tarde toda e a falta de alimentos já não era o nosso problema.

A tensão voltou a crescer: não sabíamos se seria mais uma noite de ocupação. Ouvimos, por parte do governo, que poderíamos ficar o quanto quiséssemos. Segundo eles, o movimento não incomodava.

Após longos debates, muitas avaliações, o grupo decidiu desocupar e deixar a parte interna da prefeitura. Optamos por manter a ocupação externa.

Quase 40 horas de ocupação na tentativa de manter a garantia dos direitos dos trabalhadores da educação do município de Contagem. Também para sensibilizar as pessoas que governam esta cidade, para que cumpram a lei e deem à educação a importância que ela merece.

Nós, trabalhadores da educação, homens, mulheres, professoras, professores, mães, pais e jovens, que estivemos mais de 40 horas mobilizados por uma causa muito maior do que nós próprios, continuaremos acreditando que nada virá de mão beijada. Somente através da organização, da mobilização e da luta pacífica conseguiremos garantir nossos direitos, mas não se apagará de nossas memórias o dia em que vivenciamos o poder fascista operando nas mãos de representantes de um partido de esquerda, o Partido Comunista do Brasil, com uma História e princípios manchados por um grupo sem nenhum compromisso com essa História.